27/06/2009

eu nunca hei-de ler os gregos.
nunca lhes vou comer a carne.
nem a homero nem a sofocles.

os gregos não são de ler –
comer, absorver, beber –
os gregos não são para ler.

e os vis romanos,
não me fales dos homens do lácio,
corajosos cobardes.

eu nunca hei-de ler os latinos –
comer, absorver, beber –
já sofro com o português
que lhes herdei.

eu nunca hei-de ler os gregos.
eu nunca hei-de ler os gregos.
eu nunca hei-de ler os gregos.

eu nunca hei-de ler os gregos
a não ser em tudo o que
ler

a burocracia é um mal desnecessário sem o qual não se consegue viver.

19/06/2009

considere-se um mundo com um homem no centro. considere-se que não se trata de um homem qualquer mas de um humanista puro. considere-se este um homem perfeito. considere-se que não há conflito semântico entre os vocábulos homem e perfeito – ou seja, ignore-se a antítese. ignorando a antítese é-se forçado, consequentemente, a ignorar todos os lexemas com significado, ainda que remotamente, ligados ao conceito de posições opostas. ignore-se, portanto, as palavras oxímoro, antónimo, desavença, conflito. poder-se-ia forçar o esquecimento da guerra e seus sinónimos. assim seja. consequência: este homem no centro do mundo, sendo perfeito, aperfeiçoou-o. de repente, um mundo antropocêntrico deixou de ser uma ideia renascentista, logo, arcaica. missão: encontrar o homem perfeito. matá-lo.

não sei concentrar-me. não sei onde me devo focar, a que distância devo manter-me para ser o mundo. se me colo ao teclado vejo todo o teclado, pormenores de fabrico, defeitos de letra (tenho um m perneta e já não sei qual é o i o j ou o l) mas todo o quarto me passa ao lado. se me afasto do teclado percebo todo o compartimento, sei o que me rodeia, a que altura está o tecto de me cair, quantas paredes tem o quarto (quatro, tem quatro paredes) – oposição, perco o pormenor do erro. nada tão interessante como o erro. nada tão interessante quanto tudo.

o meio termo não existe.

é preciso calma, pergunto.
a resignação é mal vista.

é necessário medo.
é necessário o medo.

é essencial não te curvares.
é vital não te curvares.

pensamento erguido, caminha de costas.
de frente com o medo.

17/06/2009

sou o retrato de
um homem in

acabado.

17/06/2009

não me sinto bem, explico, não me sinto bem como quem diz bem como sendo costumeiro. não me sinto bem porque não me sinto, ou não me sinto como todos os dias, o que não implica que me sinta mal. o habitual é o bem e o que foge à normalidade o mal. não se pergunta se aquilo que se faz diariamente não é, na verdade, o mal deixando o bem para os momentos extraordinários, com quem diz os momentos que fogem à ordinariedade. o homem pode ser intrinsecamente mau, mau como quem diz cruel, em vez de sem qualidades. a falta de qualidades num homem não o torna mau, antes despido como se uma qualidade fosse uma camisola azul, desenhada para tapar a natureza humana. que, como vimos, é intrinsecamente – naturalmente – má. má como quem diz cruel.